sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Uma experiência espiritual, vital, cultural e emocional: Esú por Baco Exu do Blues




Esse post não tem a pretensão alguma de ser imparcial, de ser analista crítico, especialista em lírica, flow e história do rap nacional. Post de uma admiradora de um cara genial, que quer compartilhar com o mundo o que sentiu ao ouvir o melhor lançamento do ano, em sua opinião.

Sem mais delongas, pela primeira vez postando sobre rap nacional, eu quero expressar aqui com o maior respeito e maior admiração pelo Diogo Moncorvo, mais conhecido pela facção carinhosa e pela cena do rap como Baco Exu do Blues. Conheci seu trabalho através de "Sulicídio", que eu vi em primeira mão, antes das 100 mil visualizações, antes de ter o boom, e fazer da cena do rap, muito mais plural, com muito mais naturalidades do que o eixo Rio São Paulo. De Salvador, terra sagrada, para o mundo!

Ouça a faixa:

Sulicídio




Logo após, houve o lançamento de 999, que amarrou meu coração como um pacto. (Era essa a intenção?), e como residente de Paulo Afonso - BA, "com a camisa eu apoio, eu apoio o rap BA". Meu sentimento de êxtase ao ouvir a percussão dessa música foi ímpar.

Ouça a faixa:

999




E aí teve o lançamento de O Culto que na minha segunda visita a Salvador, esse ano, se tornou a trilha sonora da viagem. Amém, amém, amém.

Ouça a faixa:

O Culto.




E aí o rapbox, por Leo Casa 1, produziu a Cypher "Expurgo", com Nissin do Oriente, Diomedes Chinaski (que participou da música Sulicídio trazendo a bandeira pernambucana) e Rapadura que eu amo de paixão.



E nessa mesma época de Expurgo, nasceu meu xodózinho que é Tropicália.



E depois dessa temporada de pedradas na cena, participações com Djonga, Luiz Lins e outros,  Baco Exu do Blues prometeu em sua participação em Poetas no Topo 2, promovida pela Pineapple StormTV, (ótima música, inclusive) que 2017 seria o ano lírico.

O novo álbum seria o CD do ano.



Mas cadê? A facção carinhosa se perguntava, enquanto aguardava na espera. Para adoçar nossa vida com limão, vem o Interlúdio - En Tu Mira que faria parte do novo álbum "esú".



Alguns meses após o Interlúdio, a espera valeu completamente à pena. Fé, cultura, luta e emoção, unidos num álbum só, a lírica destruidora, complexa, e se tornou um presente. 2017 já pode acabar.

Do álbum completo, foi difícil escolher as faixas principais.

Mas classifiquei aqui:

"Oração à Vitória"



Literalmente uma oração, com a introdução de Milton Nascimento numa prece para o orixá Exu (orisá esú in iorubá), meu coração já estava minúsculo. E a partir do primeiro verso "Se eu tivesse morrido pós sulicídio eu seria um mito", o deleite foi certo. "Somos onipotentes minha querida, imortais mesmo que em memórias esquecidas".
Sentimental, visceral.


"Esú"






"Sinto que os deuses tem medo de mim, tem medo de mim, metade homem, metade deus e os dois sentem medo de mim" [...] Componho pra não me decompor
Poeta maldito perito na arte de Arthur Rimbaud Garçom, traz outra dose, por favor Que eu tô Entre o Machado de Assis e de Xangô. "

Uma prece espiritual, foi a música que mais mexeu com o interno, com o interior. Momento de reflexão. O sample de Novos Baianos, faz Nansy Silvz na produção se tornar gigante. É inacreditável como as notas incorporam o som. Como se o divino tivesse medo de seus próprios órgãos, como se suas criações, se tornassem deuses que lhe odiassem. E a poesia se faz presente, pro medo, pra fé, pros anseios, pros questionamentos se manifestarem. P E D R A D A. "Nós somos deuses ou a sua criação?"




"A Pele Que Habito"



Amores de anos se tornam breves

A vida sangrenta sexo em greve
Um corpo em cólera
Ventre em febre
A música tem umas reflexões profundas. Aquela música que a gente faz cara de clipe musical olhando na janela do ônibus no horário de pico. Nansy Silvz, genial na produção das várias músicas do álbum, essas melodias são fundamentais pra vivência.



"Te Amo Disgraça"




Nos encharcou de gasolina
E falou: "sou seu amor ou seu Nero"
Eu sou seu amor ou seu Nero
Eu sou seu amor ou seu Nero
Eu sou paciente mas tem coisa que eu não espero

Love Song sem massagem! Intensa, visceral e suave. Impulsiva como a vida noturna. Sem prometer o mundo, mas vivendo ele.

 
Foto por: Mário Cravo Neto em seu livro "Laroyê" - algumas fotos desse livro foram cedidas para "encapar" as músicas do álbum "Esú", na playlist do YouTube.

O álbum inteiro é uma experiência completa pra se viver antes de morrer. Ouçam, vivam esse álbum. 




Uma experiência espiritual:
Fé, axé, a lavagem da cena da forma mais divina possível, como na música Senhor do Bonfim. Uma prece aos mitos, um clamor ensurdecedor por ajuda, como em En Tu Mira. Um pedido de socorro que recebe como resposta, aplausos. Uma oração que desabafa o caos desse mundo cão.

Uma experiência vital:
Na faixa Capitães da Areia, que assim como no livro de mesmo título por Jorge Amado, denuncia as diversas facetas do preconceito. 


Eu tô brindando e assistindo

Um homofóbico xenófobo apanhando de
Um gay nordestino
Eu tô rindo
Vendo uma mãe solteira espancando o PM
Que matou seu filho

A vida como ela é, o mundo cão como ele é de uma forma inversa, com o oprimido no topo. A simetria que acorda, desperta pro mundo real as mentes descansadas. 

Uma experiência cultural:
Nansy Silvz, genial na sua produção, trouxe samples, melodias, corais, backing vocals, que representam cultura, luta, tradição e fé. E casou direitinho com a lírica poética do Baco Exu do Blues. Uma promessa. 

Uma experiência emocional:
Dizem que os grandes poetas não inventam, eles vivem o que compõem. Os inventores da representação da realidade. Principalmente nas faixas Oração à Vitória, Esú e En Tu Mira, a emoção toma conta, cada célula da epiderme se arrepia, e por muitas vezes os olhos transbordam. Sentimento puro, emoção verídica, e tudo se torna o combo perfeito pro coração. Tratamento cardíaco. 


No mais, 


Eu quero agradecer sempre ao destino por viver na mesma época que essa obra foi lançada. E será atemporal. Baco, gratidão. Nansy Silvz, gratidão.
Valeu por todos os arrepios e sentimentos vividos ao ouvir essa obra de faixa a faixa no horário de almoço do IFBA. 
Poetas no topo, amém, pretos no topo, amém, facção carinhosa amém. Amém, amém, amém.




laroyê.

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